eu sonhei com uma luz branca.

sabe quando a gente tá com os cílios molhados e olha pro Sol com os olhos meio fechados, e vê os raios solares de um jeito todo louco, por que a umidade dos cílios interfere na nossa visão? a luz era como esse quadro, toda espalhada, líquida, pulsante e brilhante demais. eu sonhei que ela era só um pontinho, mas ia ondulando como as ondas do mar e se expandindo como um vírus em nosso corpo, cada vez maior e com mais luz, cada vez mais simpática, mais minha amiga. eu sonhei com essa luz e acordei feliz, meio flutuante. havia percebido que, olha que lindo, essa luz era eu…

11:07

a minha alma, que é um pequeno e translúcido pedaço impalpável de luz, a minha alma precisa da arte, precisa da força da arte, da música, da literatura, da dança, da beleza, da força e da delicadeza de todas as formas de amor, de todas as formas de fazer o amor transbordar, que são resultados do transbordamento do amor no coração humano. meu coração precisa transbordar também, meus olhos precisam transbordar também, meu corpo ama sentir as lágrimas se formando e escorrendo de mim e por mim. a minha alma precisa ser tocada de forma profunda e sutil, precisa de carinho, e esse carinho vem na melodia e dos timbres das vozes de quem eu não conheço, dos dedos e das palavras que extrapolam a mente de quem não conheço, não conheço mas amo e admiro tanto, acho tão lindo… porque é feito gente e transborda amor também, e provoca em mim a palpitação do meu coração, que pulsa um amor universal… por isso eu me afasto às vezes, muitas vezes, das coisas que são superficiais e que não me aquecem por dentro, por isso às vezes eu enlouqueço por dentro ao perceber a falta de conhecimento das pessoas que sabem tanto sobre tudo mas desconhecem os corações de seus irmãos, que não transbordam amor por eles… mas até esses eu amo, eu sinto tanto amor pelas pessoas todas porque acredito em sua bondade natural, meio utópica à lá rosseau, mas eu não ligo… eu não me importo em ter uma visão idealizada, em julgar muitas coisas como perfeitas, porque pra mim a perfeição não é a ausência de defeitos mas a própria existência em si, e teorias científicas e comprovações físicas podem me provar e me querer tornar cética mas o que sinto não é explicável nem comprovado, eu apenas sinto, e isso também é perfeito, e eu amo a existência desse sentimento contínuo e intenso e universal e profundo que me preenche e me torna tão eu, eu transbordo tanto… ah, como eu preciso me encontrar com a arte, preciso das pinturas e das cores para me lembrar de como sou colorida por dentro, de como transbordo todas as cores do mundo. eu não me importo em fazer sentido porque quando escrevo os meus olhos choram muito e eu escrevo sem controle, porque nesse momento eu sou apenas a manifestação da arte que me toma o corpo, o dedo, as ideias e age através de mim… nesse momento eu sinto uma emoção incontrolável, e não há como explicar isso! como explicar isso? como explicar as saliências, os abismos, os caminhos tortuosos e sangrentos do coração humano? eu me sinto grata por não saber explicar, agradeço por me contentar com esse sentir, pois esse meu sentir é tão denso que me serve e preenche não meu cérebro mas o cerne da minha existência. meu coração está acelerado ainda e pulsa esse amor universal que eu digo que transbordo, e eu desejo com tanta intensidade que todos possam transbordar assim também… pois todos guardam em si o amor do mundo que é a vida, a existência… e eu sorrio tão feliz ao pensar nisso…

juliana villarinho

7:04
estou sendo aterrorizada pelo vislumbre do meu futuro. pois se eu agora, tão nova, já sofro e antecipo o pesar da minha própria morte, já angustio o mistério do suposto fim da vida e já me sinto tão louca, imagina quando eu estiver velha e sozinha?
10:38
se sentiu tão bonita quando alguns fios de cabelo lhe roçaram o rosto, escapando do coque feito às pressas. o vento faziam com que eles dançassem e essa dança provocava ligeiras cócegas.
sorriu.
seu coração era mesmo um oceano e o livro que apoiava no colo fazia-o transbordar.
estava no ônibus, sentada próxima à janela e completamente absorta na estória que se desenrolava. as folhas do livro, amarelas, eram calorosas, mornas, e aqueciam seu coração.
num ímpeto, entretanto, parou de ler. apesar da narrativa ser tão bela, ela não resistia às cores do mundo, e teve de observar pela janela as árvores do inverno, fechando o livro mas mantendo o dedo entre as páginas que havia acabado de ler.
já havia reparado, há muito, que as folhas das árvores estavam aos poucos mudando de cor e caindo, uma por uma. lentamente, formavam um tapete cheiroso e ressequido nas ruas de cimento. sabia que folhas e flores arrancadas não duravam; então pensou que, quando descesse do ônibus, pegaria uma que já estivesse posando no chão.
não deixava de ser uma demonstração de ternura…
"que espetáculo bonito, quase um turbilhão"…

com muita gratidão, ela se maravilhava. era tudo tão poético. era tão bonito o privilégio dado aos olhos de enxergar, a bênção de sentir os aromas e também de sentir os pelos se eriçarem com a brisa gélida.
a menina começou a olhar em volta, sua feminilidade aflorando, ela mesma se transformando numa flor por dentro. de repente sentiu que era capaz de abençoar todos e qualquer um que olhasse para ela, porque seus olhos e seu sorriso desejavam tanto, mas tanto, que todas as pessoas do mundo tivessem um bom dia, um bom dia de verdade, que poderia canalizar essa energia doce e convertê-la em sorte, em outros sorrisos, em pensamentos felizes.
meu Deus, que Sol lindo se postava lá fora, com suas pequenas explosões originando os raios que esquentavam a pele da menina, anos e anos e anos-luz à frente.
lembrou-se que a luz solar precisava de oito minutos (no tempo do relógio humano) para atingir a Terra, o que significava que, se o Sol de repente morresse, demoraríamos 28.800 segundos para percebermos a escuridão total.
que coisa.
poderíamos nós estar vivendo esses últimos minutos agora e nem saberíamos. poderíamos, a cada segundo, estarmos nos aproximando mais e mais da plenitude, da morte física, mas continuaríamos executando as tarefas que nos foram impostas (pelos outros ou por nós mesmos), tarefas que quase sempre não realizamos com prazer, apenas com idealizações sobre o futuro e com a falsa necessidade do dinheiro em mente.
"esses podem ser os meus últimos minutos", ela pensou.

continuou olhando pela janela. as pessoas pareciam tão apressadas…
mas um malabarista fazia suas acrobacias no sinal e ria.
os pombos caçavam migalhas de comida no chão. uns pareciam satisfeitos e repousavam austeros nos fios dos postes.
algumas crianças atravessavam o sinal correndo, lutando mentalmente contra o sinal que já piscava vermelho pra elas. não pareciam carregar consigo a necessidade de correr, mas talvez fosse divertido despejar um pouco de adrenalina no sangue.
também não muito distante, apenas 3 pares de bancos à frente no ônibus no qual a menina estava, um casal conversava, seus rostos a poucos centímetros de distância, as bocas insuficientes para matar a sede que ambos tinham, e sorrisos, ah, sorrisos, como a menina amava sorrisos, queria poder registrá-los todos, colecioná-los.
(mas na verdade, já o fazia…)
então ela lembrou que tinha um bombom de chocolate na mochila, pegou e degustou lentamente, aquele prazer que só o chocolate é capaz de proporcionar.
"esses podem ser os meus últimos minutos", ela pensou.
projetou o rosto pra fora da janela, só pra sentir o vento mais intensamente. depois, abriu o livro na página marcada e continuou a ler.
ela era
tão,
tão feliz…
por juliana villarinho
9:45
escrito e postado sem revisão e sem título

Caminho diariamente rumo à mais densa e poética loucura. Às vezes escrevo e, como agora, ouço cada palavra ressoando em minha mente com uma voz que não é minha, junto às imagens caóticas que formam o curta metragem que passa tão somente na minha cabeça. Escrever é um mergulho profundo no cerne da minha existência. É como entrar em mim mesma e perder-me ao perceber o universo infinito que me abriga; ao perceber que sou, eu também, infinita por inteira. E que é tão bonito aqui! Tão silencioso. Tão intenso!

Dá vontade de chorar.

Há também estrelas, e tanto amor. Há luas e sóis. Serenidade, paz e contentamento. Minha alma é como as ondas do mar; meu corpo feito as rochas meio que forma um forte natural em constante erosão. O vento que me toca arranca pedaços de mim. Aos poucos, me transforma. E eu… eu sinto que minha vida está fadada à minha libertação. Aos poucos, vou me desconectando mais e mais das minhas amarras invisíveis, me desconectando até mesmo do meu corpo, me metamorfoseando em um ser sem forma alguma. Serei, um belo dia, um brilhante e feliz pontinho de luz.

Ah, que alegria!

Hoje eu ainda penso que, de repente, o meu passado e meu presente são reflexos de um sonho. De repente o que vivo é a transcendência da minha imaginação, e o futuro jamais existe.

Um dia eu observei uma formiga caminhando sobre o livro que lia, todo escrito com palavras negras, e questionei-me se ela seria capaz de perceber o que fazia: andava sobre letras e poesias, fazia parte da manifestação literária do coração de outro ser. Perguntei à mim mesma se não seria o nosso mundo e o universo tal como conhecemos apenas um livro de poesias, sobre o qual belamente caminhávamos, tão imersos e descrentes da nossa própria ignorância quanto àquela formiguinha. Soou bonito, apesar de assustador!

Esse e outros tipos de pensamentos me dão certa certeza sobre a simplicidade das nossas vidas. De alguma forma, o contraste com a imensidão de tudo torna as relações humanas patéticas. Sinto que as mulheres e os homens deveriam apenas ser o que são; ouvir seus corações que naturalmente optam pela vida sem luxos, a vida próxima à natureza. A ganância, a inveja, o ódio e a vaidade não são naturais dos seres com vida. A luz do Sol e da Lua ilumina a todos.

Às vezes parece que sou mais de uma. Entre tantas outras, tenho duas personalidades muito fortes, e elas vivem em conflito! Porque quando uma diz sim, a outra diz não, e eu fico perdida no meio delas. Disseram-me que cada uma delas é fruto de uma vida passada, na qual fiz certas escolhas que me levaram à uma experiência distinta da outra. Nesse momento, a minha personalidade mais simples e leve escreve por mim. Ela flutua e sorri.

De repente, já estou de volta. O curta acabou, mas de uma forma que eu não esperava, exibindo uma cena que não filmei. É como um quadro, que permanece parado por 6 segundos antes de acabar: há um pedaço de cimento meio rachado, formando uma casa pintada de salmão, mas só um pequeno pedacinho da casa aparece, mostrando a rua de tijolos e um vaso com flores secas.

De alguma forma, isso é lindo.

(por juliana villarinho)

2:52

eu
sendo abraçada

12:08

presente de um beija-flor
Eu vi um beija-flor barulhento e comecei a chorar.
Mas, antes, me desenrolei assim:

Estava em uma chácara bem florestada, colorida na medida do possível.
Fui até lá para fazer nada.
Sentei e comecei a olhar em volta. Depois lembrei que carregava alguns livros de história comigo, então peguei um deles, folheei-o e tentei me concentrar na leitura. Minha atenção, no entanto, era desviada a todo momento pelos barulhos repentinos, e eu me pegava subitamente assustada, com medo de alguma coisa que ainda não possuía um semblante.
Ai veio aquele aperto no coração - aquele aperto brusco mas delicioso que toma forma quando a inspiração chega -, e eu peguei um lápis e fiz uma ou duas anotações:
 
Quando você se torna consciente da profundidade dos loucos problemas da sociedade, quem se torna loucamente problemático é você, pois, depois disso, não há mais nenhum possível encaixe ou compreensão, apenas o descontentamento, a revolta e a sede por revolução. 
 
Eu não temo a natureza selvagem, nem os animais que desconheço, tampouco sua simplicidade. O que me assombra é a incerteza de que estamos, eu e a natureza, a sós; eu tenho medo dos humanos não-naturais que podem se esconder e me fazer algum mal, pois há homens e mulheres que insistem em forçar uma maldade doentia que só destrói seus corações naturalmente benevolentes.
Então eu comecei a sorrir e a sentir, na mulher que sou, a essência do mundo que eu também sou e que guardo dentro de mim. Ah, não nego, os insetos exóticos e os aracnídeos gigantescos me assustam também, mas isso porque eu só sei olha-los com olhos sombrios e preconceituosos. Quando eu os vejo, não os registro pelo o que eles são; não penso na beleza de seu formato, na perfeição do seu voo ou do seu tecer, não admiro sua habilidade, tampouco levo em consideração os milênios de evolução que se passaram para que eles estivessem ali, vivos e em perfeito equilíbrio com o meio no qual estão inseridos. Não sou capaz de pensar que carregamos, todos nós, a mesma essência, e que devemos nos respeitar. Não! Pelo contrário, quando eu os vejo, estampo em mim um olhar arrogante e prepotente, me esqueço daquele momento presente e penso nos desdobramentos futuros possíveis no caso de, de repente, talvez, eu ser ferida por algum deles. Por isso me afasto, com nojo. Ah, mas que injustiça!
Logo após, li duas páginas com perfeita concentração.
Foi aí que apareceu o beija-flor. Todo pomposo, pequeno, ágil, de beleza sutil mas intensa. Primeiramente, ele, que era deveras barulhento e parecia querer chamar atenção, apenas me fez rir por uns segundinhos. Mas depois, enquanto ele pulava de uma flor para outra e, sem saber, executava uma das tarefas mais importantes e bonitas do mundo, eu que observava sua simplicidade, sua humildade e delicadeza, sua segurança e intimidade com as flores (que mostravam seu íntimo de todo o bom grado), não resisti e chorei calada, dentro de um comum lapso de controle. Minha sensibilidade tão aflorada fez transbordar dos meus olhos lágrimas densas, que me limparam o coração mas também me entristeceram. Sim! Pois comecei a refletir! E eis aqui o restante das anotações:
 
Não entendo essa esperteza toda das pessoas que sabem fazer prédios tão altos e celulares tão multifuncionais, que sabem construir ótimas relações comerciais e que almejam a estabilidade, o sucesso, o equilíbrio, mas ferem a si mesmos o tempo inteiro, ignorando completamente o que seus corações internamente desejam. São essas mesmas pessoas incapazes de construir uma flor verdadeira, de fazer fotossíntese, de ter uma relação fiel com seus amigos e irmãos do mundo inteiro, ajudando-os, amando-os a todo instante! Essas pessoas arrancam de si a possibilidade de serem equilibradas ao menosprezar aquilo que não dá dinheiro, e sim algo muito mais valioso - a paz profunda, a paz de espírito, o mais profundo contentamento. Como pudemos nós, que fomos abençoados pela natureza com o poder da consciência e o poder da palavra e da ação, como pudemos nós esquecer da nossa essência? Ah, como desaprendemos a amar sem distinção, a viver sem pressa? Nossa espécie não mais se emociona com nascer do sol! Ela é descrente quanto ao milagre da vida e a plenitude do universo! Ela é mesquinha, egocêntrica, estressada, e não entende nada sobre valores! Como chegamos a esse ponto? Ah, por favor, alguém me ajude a entender, alguém me explique e acalme esse meu coração revoltado que só entende que a única revolução verdadeira é o amor…

Agora, calma, reconheço: a explosão desse sentimento, desse pensamento que correu por mim como as águas correm por um rio, foi um presente dele pra mim. Mas naquela hora, apenas terminei de acompanhar o beija-flor com meus olhos úmidos e voltei a sorrir.
(por juliana villarinho)
6:54

ah, passarinho

oh, doce liberdade!

cê deixa meu coração palpitoso à beira de um ataque

logo você que é tão calado…

eu te quero só pra mim dentro de mim assim

vem?

ou me empresta as suas asas

a sua coragem

o seu desapego

(mas posso não devolver nunca mais?)

eu te amo tanto

eu amo tanto o que você representa

eu amo tanto o que sinto que você é

será que você só é e nem se dá conta?

de repente você não tá nem aí

então viva dentro de mim

penetre a minha carne e faça do meu coração o céu

eu deixo você voar pra sempre aqui

pois meu coração é imenso e colorido como céu

 - só que vai morrer.

mas vem. não se intimide, passarinho!

oh, doce liberdade…! vem me ser, vem me ter

eu me entrego à ti - logo eu que sou tão dona de mim

quero ser tua pra sempre

e viver plenamente.

juliana villarinho

7:15
por juliana villarinho

O negócio é o seguinte.

Eu SOU livre.

Enquanto eu respirar, eu estarei livre.

Depois que eu respirar, também.

NINGUÉM jamais terá o direito de arrancar isso de mim.

Podem até me prender, me enfiar numa cela, me contaminar com pensamentos ruins, mas de nenhum modo tirarão minha liberdade, pois ela me transcende, ela não se limita ao plano físico.

Sendo livre, eu tenho o direito de escolher limitar minha liberdade em detrimento de pessoas, valores ou do que quer que seja. EU escolho, porque eu sou livre.

Ao dizer que meu espírito é livre, não me prendo às essas palavras, pois não é uma definição; é uma constatação que eu aceito, respeito e incorporo por espontânea vontade.

Eu estou pouco me fodendo para as opiniões alheias, para os valores deturpados da sociedade, pros falsos moralistas mesquinhos e egocêntricos que não enxergam as verdades mais óbvias. Eu não tenho medo de gritar e dar minha capa aos tapas, pois minha liberdade é minha força e também minha coragem.

Se eu pouso, se acato e me aquieto é porque eu acho melhor agir dessa forma nesse momento. Eu garanto: o dia em que for-me conveniente, em que o desejo de voar for intenso, eu serei verdadeira para comigo. JAMAIS me prenderei, pois me respeito.

Assim como minha liberdade é minha por direito e desejo você também é livre, e a única pessoa capaz de te libertar das algemas mentais é você mesma.

NUNCA permita que arranquem isso de você. Tenha paciência com as coisas que não pode modificar e sabedoria para discernir os momentos de ficar e os momentos de ir embora. Não se afobe, como muitas vezes faço. Mas, acima de tudo, não se prenda.

Liberdade também é amor. Se você ama, deve aceitar que todos precisam exercer o direito de escolher.

Acima de tudo, liberdade é vida. Prisão enlouquece. Prisão entristece. Prisão nos tira de nosso estado natural, que é o de paz, de alegria e contentamento.

Ser livre não é ser egoísta. Em detrimento do amor de certas pessoas, às vezes devemos optar ficar, por mais que ficar não seja nosso maior desejo. Não fazer nossa própria vontade de partir é satisfazer a vontade de estar com alguém, de agradar, de levar contentamento, e isso é amor, e amor é liberdade.

Acima de tudo, não deixe que sua liberdade te escravize. Aliais, seja livre até pra permitir isso! Eu apenas não recomendo. Não recomendo que fique pensando e filosofando demais. Não recomendo que escreva um texto maior do que esse que faço agora. Liberdade também é simplicidade pois é só ser e pronto, e não existe nada mais puro, mais natural, mais lindo do que seguir o instinto de ser livre — e feliz.

7:03
um cuspe no seu ouvido

sei que não posso ter a liberdade, já entendi que ela não é algo que cabe nas mãos ou no corpo de alguém, não é um bem materializado, tampouco uma energia transmutável; atrevo-me a afirmar, maluca desvairada que sou, que a liberdade é um estado de espírito, e incluo ai toda a grandeza incomensurável e felicidade amadora que pode haver na definição, toda a sutileza rebelde que pode escorrer dessas palavras vãs. ah, que delícia é então afirmar que eu sim posso estar livre, talvez não de mim pois eu e eu estamos fadadas a companhia uma da outra, mas dos pensamentos que me gastam energia. livre da pré-ocupação com problemas que nem foram plantados — tampouco colhidos! -, livre das garras invisíveis da sociedade (fuck society!!!) que me travam a espontaneidade e me sufocam os sonhos mais bobos. eu posso estar livre da amargura e do rancor e do peso do meu próprio corpo, e não é magia não senhor, é sublimidade.

ó, assim faço: eu posso e busco dentro de mim esse estado que é a Paz, que é o Amar a mim mesma e a todos ao meu redor, Amar as plantas e as pedras, as cores e os cheiros, o oxigênio, o calor, cada grão de areia de cada praia do universo. também assim busco a total contemplação do mais simples, pois sei que não há sofisticação maior, e granjeio com calma e paciência o pleno contentamento e a gratidão, que são sentimentos nobres, que fazem o coração transbordar, que fazem o corpo e a alma atingirem um nível de encaixe e sintonia tão perfeito que sinto e sou homogênea e permeável.

então sem poesia sem preocupações sem acentos e sem gramática, deixe-me deixar claro que essas palavras que cuspo (com carinho), ou melhor, que escorrem da minha boca com graça e privança na busca insaciável por encontrar os teus ouvidos cheirosos, essas palavras querem te mostrar que o mar e as estrelas tem a resposta pra tudo, ou melhor, está tudo dentro de você, inclusive essa tal de liberdade que todos tanto almejam, e basta um pouco de silêncio ou caos, aí é contigo, pra libertar a sua liberdade, pra que ela te seja e te contagie tal como estado de espírito que é.

juliana villarinho

2:32

eu quero eternizar o dia de hoje - não só porque fiz em meu corpo uma pequena tatuagem, sem sobre isso muito pensar -, mas porque antes mesmo de saber que eu a faria hoje, eu sentei na varanda e o Sol lambeu o meu rosto e foi tão, tão gostoso, o Céu estava tão, tão azul, tão límpido, tão puro, me purificando, me perdoando, me abençoando… e eu decidi que o que eu quero é ser feliz!!! sem medo, sem pensar muito, apenas ser!!!!!!! quero toda a leveza, toda a paz, a simplicidade e a humildade… e sorrir como estou sorrindo agora, sem mostrar os dentes, porque o que sinto é tão profundo que não é expressado pelo meu corpo, mas pela minh’alma, e essa sim, essa sim está sorrindo tanto, tanto, deve dar até pra ver

4:26

a vida é esse fluxo contínuo, um rio inexorável de energia inesgotável que transcende, se invade e se acha em todos os cantos, e flui nos beijos e nos estrelaços de línguas e nos amassos de papéis vãos e nas poesias que de tão cruas ferem, também na chama e na calma do fogo e no fluir da água, e mesmo no parado, pois sinceramente de parado não há nada, tudo pulsa a todo instante, e contendo ou gritando há caos, e nesse caos a harmonia da vida, dos gases, da essencia que também se move, dançando de olhos fechados a valsa do amor, que é a essencia da essencia e que abriga a tudo e todos e a tudo. a vida é essa maluquice tão consciente que só sabe que nada sabe e por isso saber se torna eloquente, quase contraditória, mas entenda, é que a vida também é essa contradição ambulante, o desejo e o freio, a marcha ré e as memórias, uma pilha de sentimentos que não se acham mas choram, e quando não choram gritam calados. a vida precisa escapar, ela é esse escape de si própria, e a necessidade de ser e o desespero de não saber como, quando ou porque; é esse abismo eterno cheio de luz, de paixão, de desgraça, de crianças, mas mais do que pele suor sangue cabelos, dessa fluidez impalpável que mora nas pedras e nas pessoas e nos animais e nas árvores e em tudo o que da natureza nasceu cresceu e sorriu. a vida é amor e amor e amor e amor e não faz o menor sentido porque o amor também não faz…

então procuro um motivo para procurar um motivo nisso tudo, nesse fato da gente respirar, das coisas serem como são, de serem tão mutáveis mas tão duras, de serem tão moléculas mas tão imateriais, de estarem envoltas em um véu invisível que parece nos impedir de enxergar verdades provavelmente óbvias. não há motivo. desista. eu desisti. eu entendi que basta ser e captar a ideia de que é tudo tão complexo que termina por fácil e chorável. é tudo tão louco que se entregar de mão beijada e simplesmente voar feliz parece a coisa mais óbvia e lúcida de se fazer. e a única revolução verdadeira é o amor.

obrigada.

(juliana villarinho brandão)

9:20

eles não sabem quem nós somos

mas não tem problema porque

nós não sabemos também

a diferença é que cultivamos

(eu e eu)

uma avalanche silenciosa, de terra, de ar, de mar

que carrega tanto amor, tanto amor

que nosso corpo não suporta, e às vezes até parece

que vamos explodir

da onde vem esse amor pela lua?

com qual zelo e ternura transborda a fascinação pelo sol?

são tão belos esses astros, fontes da vida

são tão belos

e nós amamos tanto!!!

nós agarramos a vida como se ela fosse

feita

ar

e nós

pulmões vazios

às vezes até parece

que vamos explodir

(Juliana Villarinho)

11:29
a minha tendência é a loucura

A tendência do homem é a loucura.

E eu sou deveras curiosa.

Veja até que ponto minha curiosidade chegou - às vezes morro de vontade de morrer, só pra saber como é. E essa ansiedade, ah, ninguém sabe o quanto!, essa eterna ansiedade me incomoda. O que será que há depois da morte?

Crenças religiosas não me saciam mais. Há tantas, que no fim é provável que todas estejam erradas. Quero saber se vou cair num abismo escuro e se nada mais haverá. Quero saber se pensar vale à pena.

No fundo, eu sei. Eu sinto que existe algo. Mas e se meus sentimentos estão errados? Quem disse que eu sou a dona da razão?

As pessoas não entendem como tantos já foram à loucura. Mas que loucas são! Não há nada de sano em permanecer tão pleno, tão certo,

tão confortável,

tão inerte.

A minha tendência é a loucura. E essa frase eu fiz dentro da minha cabeça enquanto pendurava a calcinha molhada, depois do banho. Há tanto para se pensar. Viver é tão estranho. Fiz outras frases também, mas todas se perderam no abismo da minha consciência. E por elas serem importantes - ao menos pra mim - esqueci instantaneamente.

Eu entendo a loucura alheia. Às vezes, sinto que estou à beira de um precipício, sinto que um só passo me separa de mim mesma. Devo cair? Será que posso voar?

E enquanto tantos pensamentos me permeiam, há tantas outras mentes pensando em coisas igualmente complexas e interessantes, e tantas outras pessoas fazendo aquilo que detestam só porque alguém mandou, ou porque elas acham que a chave pra felicidade está ali, e há tantas pessoas fazendo sexo, tantas pessoas cheirando peônias, tantas pessoas morrendo e descobrindo aquilo que tanto almejo saber.

Percebo que ninguém pode me compreender quando releio meu texto e noto que simplesmente esqueci dos conectivos. Ou, simplesmente, não coloquei porque não estou nem aí pra eles; essa convenção e rigidez sobre a escrita me dão náuseas. Minhas frases são dispersas. Minhas frases não acompanham meus pensamentos, e, ainda que acompanhassem, eles também são dispersos. Voam. Metamorfoseiam-se em um segundo (enquanto escrevi “metamorfoseiam-se”, já pensei em outras várias coisas, mas se perderam também…).

Infelizmente, sinto que eu e você estamos presos em redes invisíveis, e todos os nossos atos são comedidos. Eu quero fugir, sabe? Eu quero me jogar no mundo, não ter muito dinheiro, viajar sem medo, dormir na rua, escrever textos bonitos, ser muito feliz. Eu quero ir pro meio do mato, pendurar uma rede entre as árvores, deitar nela, me balançar, ler um livro gostoso e pensar no quão triste é sentir que as raízes humanas foram arrancadas e plantadas num vaso de ganância, de egoísmo e desumanidade. E que próspera era a terra dessa vaso!…

Eu nem lembro mais porquê comecei a escrever.

Só sei que já se passaram uns 15 minutos e eu tenho que terminar porque preciso estudar e o tempo voa tanto, mas por que o tempo voa tanto se os segundos são uma mera invenção humana, e por que eu preciso estudar se não estou afim?

Fuck society.

Eu me rebelo, e de repente sou “uma adolescente com hormônios aflorados que um dia vai entender que seguir a trilha feita pelos outros é a melhor opção pra alcançar a felicidade plena”.

Ah, mas quem me fala isso é tão infeliz…!

Sei que não sou louca, mas é gostoso me adjetivar assim, pois a loucura tem algo tão profundo, tão instigante e tão sedutor; talvez por isso eu goste tanto dela! Tenho dar as costas mas ela sussurra no meu ouvido que guarda sensações pra mim, só pra mim, só pra mim.

E a minha tendência é abraçá-la forte. 

Juliana Villarinho

9:35

somos a poeira

nossos abismos mal cabem no espaço de tempo

nossos desejos e nossos heroísmos e nossas covardias não marcam a história

nem como um pingo de tinta azul mancha ligeiramente a imensidão branca do papel branco

mas que triste que é não ter

mais o segundo que se passou e saber

que a cada percepção, já não somos mais os mesmos

e as árvores

as árvores já são outras também

verdes imensas e imortais

nunca iguais.

nos registros da eternidade que já se passou

desde os primórdios de nossa ingênua existência

sempre houve pessoas incríveis

mas onde elas estão?

nossos atos dificilmente serão lembrados por gerações futuras

somos poeira, somos um milésimo de segundo,

somos meia lágrima

mas ainda assim, nós somos

e só por ser, já temos a obrigação de respirar, já temos

o dever de fazer cada molécula de oxigênio ser utilizado com dignidade.

também,

nós precisamos da ilusão de que o que fazemos é memorável

não é

mas isso não quer dizer que não seja importante

portanto sejamos poeira

mas não uma poeira qualquer e sim

a poeira do universo que em seu gigantismo nos abriga como os seres que somos

e nos possibilita transcender.

já eu,

eu

agradeço à vida pela experiência de viver e de ser poeira como tal

e prezo para que na memória do mundo eu apenas tenha sido

sem complemento verbal

para mim

pra mim basta.

Juliana Villarinho, no ônibus

1:51
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