Era mulher. Tinha uns seios fartos, umas pernas bambas (duas, para ser mais exato), um olho desenhado com maquiagem, o outro cego. Passava pelo francês aspirante a jogador de futebol todos os dias antes de comprar pão e sentia a intensidade de seu olhar, mergulhado no decote ousado que sua blusa exibia. Às vezes, sorria, às vezes, fingia se incomodar. Com seu olho bom, via o mundo, mas não na forma poética, abrangente e bonita da visão, e sim na que enxerga a aparência da realidade e sente a consistência do tocável. Guardava um sinal de nascença sob seu lábio superior, mas isso ninguém nunca reparara, mesmo quando ela pintava a boca com a tinta vermelha mais atrativa que havia no catálogo de batom. Estudava literatura hispânica e aprendia física quântica com uns livros antigos, não hesitava e comentava sobre o quanto sabia e o quanto ainda iria aprender com todos que fizessem menção de desejar bom dia. Gritava atenção. E por mais que sua aparência fosse ligeiramente desavinda, que sua cabeça se enchesse cada dia mais com a essência mais exímia da intelectualidade, e que ela pensasse como quase todos pensavam, quando trancava a porta de casa e aparecia na rua, os olhos de todos se voltavam para o seu decote.
Mas, num dia qualquer de setembro, quando conferia a caixa de correspondências, encontrou um bilhetinho coral. E nele haviam sido caligrafadas um punhado de doces palavras:
Por que quando você passa
As lagartas voam alto
Em sua forma mais pura,
A forma de lagarta?
É porque quando você passa
O mundo fica mais bonito
Perde a feiura da realidade
E mergulha na fantasia da mentira
E porque as lagartas também sentem
A felicidade dos corações dos poucos
Ingênuos gênios que acreditam
Que lagartas possam sentir…
Ela sorriu. Nem todos olhavam para seu decote.
E aumentou o decote ainda mais.
1:15Entre novas gerações adulteradas e antigas gerações significativamente desinformadas, paira um metafórico véu de incompreensão que só tem trazido consequências negativas e fortalecido as leis invisíveis que regem a sociedade. Hoje, saber que uma adolescente de 15 anos engravidou não nos choque, apenas excita a centelha de curiosidade que temos de saber o que acontecerá com essa moça: se será expulsa de casa, se abortará, se buscará apoio e assumirá o bebê que cresce em seu ventre. Isso não deveria acontecer.
Existem, é claro, diversos fatores que propiciam a gravidez precoce. Entre eles, há a dificuldade dos pais de conversar com seus filhos sobre sua sexualidade e a intolerância dos próprios adolescentes de tentar entendê-los. Com essa falha de comunicação - muitas vezes proveniente de um pensamento paterno mais individualista - os adolescentes se tornam mais suscetíveis à persuasão social.
Podemos também citar a mídia e acusá-la de ser uma das responsáveis, pois a vemos desenvolver em adolescentes vulneráveis a necessidade de se igualar a uma ou outra personagem da televisão que, para agradar o senso comum, costuma destacar valores e ideais fúteis. Dessa forma, assistimos, cabisbaixos, ao surgimento de mini Carla Perez pseudo intelectuais nos mais diversos meios sociais.
Sem esquecermos da influência da situação econômica e social nos índices de gravidez precipitada, devemos ressaltar e compreender que, em lugares onde a pobreza atua como um filtro de informações, ou seja, em que a falta de condição de obter informações prevalece, os adolescentes deixam de construir a fortaleza que os protegeria dos descuidos dos desinformados.
Por fim, podemos concluir que a crise da adolescência dá-se por diversos motivos e que, à nós, cabe cultivar a tolerância e combater o preconceito para, assim, mudarmos esse quadro que só tende a se agravar.
Verbalizada, dissertação da escola, tema “Gravidez precoce: a crise da adolescência”.
2:27Era uma vez alguém.
Com suas mãos sob o vestido da moça, sentia a maciez da seda, a força da própria palpitação, a lenta e sutil quebra de seu cárcere. Seus lábios desenhavam a forma mais lúdica da felicidade no rosto daquela à quem dedicava tanto amor, enquanto sentia os cabelos escuros que ela possuía lhe caírem sobre os ombros. Estavam sozinhos. Não havia luz ou som, só cores e sorrisos, taças de vinho e castiçais. E ele, que não gostava de dormir sozinho, expulsava-a de sua casa, corria para dentro de sua obscuridade e apoiava os pensamentos tristes numa almofada, porque esse era o certo.
Mas o que haveria de ser errado para o Escravo das Aparências?
Se a água mostrava-se incolor, errado era o azul, e que fossem quebrados todos os copos que infringissem essa verdade inalienável. Se por um menino se apaixonasse, proibido deveria ser o encontro de seus lábios, tampouco as mãos poderiam ser entrelaçadas, pois o que haveria de pensar o povo lá fora? Se uma rosa vermelha não refletia outra cor que não o vermelho, como poderiam existir as rosas azuis, brancas e amarelas? Não poderiam. Eram todas erradas e mereciam ter os caules cortados e os espinhos cravados nelas mesmas.
Apesar da evidente aspereza, nem um vestígio de crueldade residia no corpo do Escravo. Eu sei defendê-lo. É que ele apenas fincava as ações nos pensamentos e os pensamentos nos próprios ideais, que deveriam ser defendidos sob qualquer hipótese, e esses ideais tinham um corpo preconceituoso e medroso. Ainda que parecesse severo demais, ele era bom como um pedaço de broa, e seu coração tão grande, tão bonito, que contrastava com a personalidade néscia.
De todas as formas, absolutamente imersa esse jeito amargo, sua vida perdia até as cores e os sorrisos, as taças de vinho e os castiçais. E ele, que não gostava de dormir sozinho, que se prendia à correntes de arame que machucavam mais do que protegiam, ao menos assistia ao fim de sua vida com a consciência tranquila, achando que por todos lá fora era julgado como certo.
Ironicamente, o povo comentava:
“Tá vendo aquele tolo, alí? Tá morrendo aos poucos. Tomara que morra logo, de uma vez. É bom que prolifera menos a própria infelicidade.”
E enquanto as rosas azuis cresciam, os meninos se amavam, na água era posto corante verde e sua dama se casava com outro, ele morria.
Fim.
3:54Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é andar de ônibus. Adoro fazer sinal, adoro correr atrás do ônibus, adoro subir as escadas, adoro cumprimentar o motorista, adoro entregar o dinheiro, receber meu troco, passar pela roleta e escolher um lugar para sentar e aproveitar a viagem. Adoro quase cair inúmeras vezes, adoro ter de optar por sentar perto da janela ou do corredor, adoro sentir o vento escravizar os meus cabelos, adoro ter um tempo para mim, para pensar em bobagens, em quem está dentro, em quem está fora, em quem não está. Adoro tentar adivinhar onde as pessoas que estão entrando vão sentar, adoro o incômodo quando escolhem o assento ao meu lado, adoro observar a pressa de quem está parado. Adoro ter algumas dezenas de minutos, todos os dias, para eu fazer tudo e fazer nada, dentro de um ônibus. Adoro quando há um buraco no asfalto e tudo salta, adoro a constante, aconchegante e habitual tremedeira, adoro a ideia de pensar no que eu quiser sem a pretensão de ser julgada por mim mesma, pois, afinal de contas, estou no ônibus, não sentada na minha escrivaninha reescrevendo um discurso imaginário. Adoro as súbitas curvas, perguntar à mim mesma se os outros também adoram, adoro pensar sobre o quanto adoro adorar o clima dos ônibus. Adoro puxar a cigarra, adoro chamar aquela corda de “cigarra”, adoro caminhar no corredor e passar por vários rostos desconhecidos. Adoro esperar as portas se abrirem.
Só não adoro voltar pra casa.
10:53Dessa forma se sente, quase como culpada por carregar um pouco de alegria nesse mundo que mais que amor, prolifera a desgraça. Assim questiona a lentidão das horas e rapidez dos anos, quase como se pudesse desvendar qualquer coisa dessa vida hostil e enigmática. Assim recolhe-se, tira o pó dos livros e veste a camisa de força por livre e espontânea vontade. De mansinho, almejando largar a vida morna e perder o vício de ser vítima dos próprios clichês, segue presa num fio de vida tênue e indecoroso. E sozinha, com os cabelos bem penteados, acorda no meio de noites alternadas para chorar, para servir mais um copo de café à Lua que veste o céu, para ler duas frases de um livro decorado. Não quer mergulhar na tristeza, mas não abre mão do prazer que é sentir a face sendo trilhada pelas lágrimas que caem tão depressa. E os seus colares de pérolas, que sempre pareceram ter acabado de sair do mar, agora se arrebentam sozinhos, cinzas, mortos.
Por que a menina é assim? Por que chora tanto, por que não dorme?
Ela não está presa, e nada é pó, só na sua cabeça. Sabe que o que guarda dentro de si não é doença, que remédios não curam, que sorrisos guardados na memória não tem a mesma força dos que se fazem e desfazem lá fora, mas a verdade não a incomoda, não a motiva, só a mantem entretida. Escuta músicas que lembram beijos e deixa a saudade daquilo que nunca existiu a consumir; lutar não vale a pena, porque a vitória não a enobrece, tampouco efeito a derrota faz. E mesmo que tudo pareça sombrio, vazio, inóspito, quando pousa sua cabeça no travesseiro, a lágrima que escorre é de felicidade…
Por que a menina é assim?
5:56Uma menina chora
E só um questionamento perdura:
por que?
Então uma vela é acesa.
A chama não é grande, mas sua luz representa o fim da escuridão, como uma mancha colorida no meio da visão inebriada de um cego. Os dedos negros da menina tremem, e por pouco a vela não é partida pela gravidade, que impiedosamente leva ao chão tudo que perde apoio. Naquele momento, a menina também é uma vela, e tem tanto potencial para ser luz quanto certeza de que um dia se acabará e não passará de um desenho mal feito e derretido, de um resto do que fora outrora. Sua camisola azul é cinza, e seu reflexo no espelho é um borrão suicida. Nesta noite setembrina, encontra-se sozinha, como de praxe, e a caixa de fósforos guardada na segunda gaveta da cozinha parece cruelmente cheia.
Uma ideia
Outra lágrima
Porque viver de amor só causara dor…
Mas que dor há de ser essa, que nem as palavras e a poesia são capazes de curar?
Quem a lê já espera: morte, talvez um pedaço de chocolate, porque todos os livros contam uma cena parecida e então acabam, previsíveis. Mas eu, que a vejo como uma personagem tão jovem, tão viva, tenho certeza de que ela não tem coragem para tirar de si a própria vida com que fora abençoada. Pergunto “que dor há de ser essa?” pois sei que os livros, repletos de palavras, e as palavras, donas de uma grandeza que só cresce dentro de si mesmas, com todo o seu poder de despertar as mentes mais cansadas e agitar os pensamentos menos agudos, podem invadir qualquer coração e enganar a dor com um véu de fantasia, podem sufocar qualquer abismo com bromélias e sarar machucados de todos os tipos com um simples vislumbre de paixão. Paixão esta que a menina poderia criar, cultivar, e substituir a que outrora a arrancara lágrimas de sangue.
Então se há cura - ou uma pseudo-cura provisória - por que a menina insiste na vela? Por que não a apaga e vai dormir? “Que dor há de ser essa?”
Um movimento
Outra lágrima
Por um instante, ela se vê, pequena, frágil, chorona, e só pensa: quem é a fraca agora?
A vela cai sobre seu vestido ensopado e a chama a consome. Eu só arregalo meus olhos, grito desesperadamente, peço para que pare, mas meus esforços são sufocados, pois sou só um espírito de poeta que vaga pelas cidades procurando pela minha poetisa. Não tenho corpo, não tenho voz, só tenho pretensão…
Então é verdade, a menina de tudo desconhece, a menina não sabe criar forças para viver!
“Por favor, não faça isso consigo mesma, você ainda nem conheceu a magia das palavras! Ainda nem devorou os poemas, as estórias, os contos, as crônicas! Você ainda nem descobriu o que é viver!”
Eu grito, eu clamo…
E equivocada a menina morre, achando que entregar-se à Morte é ato de coragem, quando corajosos são aqueles que vivem e que, mesmo que até de respirar já estejam cansados, fazem de qualquer motivo uma razão para viver…
Agora é meu dever ensiná-la, e fazer dela minha poetisa.
Vislumbro sua alma, ouço seus gritos.
De mãos dadas, a levo comigo.
2:36Havia uma mulher, uma cama. Ambas dentro de uma casa, numa rua, numa cidade. E havia também uma mesa, um pedaço de papel, uma caneta. E na mulher havia lágrimas, um sorriso malogrado e uma palpitação descompassada.
Não tardou a escrever.
“Oi.
Meu amor, oi!
Oi? Amor?
Oi, amor meu.
Amor, oi.
Oi.
Acho que é assim que se começa.
Oi.
Sinto muito, mas perdi o jeito com essas coisas de carta, de comunicação, de relação. Por muito tempo fui eu, umas garrafas de bebida alcoólica e um CD com as músicas mais tocadas dos anos oitenta. Por muito tempo, você foi só como um espasmo controlado, um grito abafado, um gemido mudo. Por muito tempo, o Tempo passou despercebido pela minha porta, trajando uma espécie de “capa de invisibilidade” bem costurada, arrastando os pés silenciosamente, escondendo de mim a realidade com um pedaço de pano fétido. Por muito tempo fui feita fantoche, e em nenhum momento me prepararam para ceder de bom grado à súbita peça que o tal Maldito resolveu pregar em mim; assim, fui acordada com água gelada nas têmporas - metaforicamente falando, é claro.
Bem, acho que foi ontem durante a madrugada. Eu estava morrendo aos poucos, como de praxe, me revirando na cama como se o desconforto físico fosse o que me corroesse, quando meu pé escapou das cobertas e gelou instantaneamente. Por um segundo, nada aconteceu, a vida seguiu e meu pé foi coberto novamente. Mas então lembrei-me de você, do seu nome, da sua identidade, das suas manias, dos seus cabelos e paranoias - paranoia essa em que o corpo deveria estar completamente coberto ou você não adormecia. Não sei se você recorda, mas era realmente uma chatice! Às vezes eu gastava três minutos inteiros cobrindo você, porque você sempre foi muito minucioso, e eu reclamava bastante, né? Mas no fim, você agradecia, me pedia um beijo e caia nas profundezas do seu próprio sono.
A lembrança chegou com tanta força que pareceu nunca ter sido expulsa da minha débil mente. De repente, fiquei sufocada de saudades, e agora tá tudo apertado, dolorido, agudo. E saudades essas me trazem aqui, me levam a segurar essa caneta e a transformar uns pensamentos hiperativos em palavras mal desenhadas.
Daria tudo para saber como você está, para poder me desculpar caso algum dia tenha deixado de beijar-te o rosto depois da escola ou por não ter comprado o seu biscoito favorito por pura teimosia. Pois amo-te muito, muito, de verdade, e mesmo que eu tenha passado os últimos muitos anos tentando apagar-te da minha vida, guardo a certeza de que morrerei sussurrando seu nome, desejando olhar em seus olhos pela última vez.
Amor meu, oi…
Sinto-me uma boba escrevendo pra você, porque você nunca gostou de ler. Agora deve tá jogando bola lá no Céu ou brincando com as outras crianças, e essa ideia arranca-me um sorriso torto, porque meus lábios se esqueceram de como abrir. Por favor, peço-te agora que dê um tempo e leia essa carta da mamãe, está bem? É que eu preciso que você saiba que você é o meu amor maior, preciso que saiba que sou louca por você e que teria me oferecido à Morte no seu lugar, se à mim houvesse sido entregue a oportunidade de fazê-lo.
Agora a mamãe vai embora. Obrigada por tudo.
Tchau, filho.”
Foi ai que a mulher parou de escrever.
Tão logo apoiou a cabeça na mesa e morreu.
5:50A garota abriu o livro.
Dedilhou-o calmamente, com dedos costumeiramente famintos, ansiosos, mas pacientes. Estava sentada no chão frio da varanda, sentindo a brisa gélida beijar seu rosto, degustando a sensação de completa paz na qual estava imersa. Era noite, e sobre si mesma pairava o elegantíssimo pedaço da lua, o único vestígio de inspiração que o céu a concedia. A menina ainda não havia lido o livro e, especialmente por isso - porque aquelas páginas estavam cobertas por um esplêndido véu de mistério -, a comoção residia. Finalmente, sobre a primeira página foram postos os olhos dela, e a seguinte ordem foi lida: ESCREVA.
Surpresa, começou a pensar. Havia consumido tantas palavras, aprisionado em seu cérebro a imensidão de tanto conhecimento, que talvez - ou melhor, provavelmente - estivesse pronta para vomitar tudo em pedaços de papel.
Fechou o livro e tascou um beijo em sua capa pintada. Entrou na casa, pegou dois lápis e fez-se história:
“Os corpos imploram por mais alma, o mundo chora lágrimas que, antes mesmo decaírem, já se amarguram. Mas, ainda assim, há muitos sorrisos ingênuos, muita felicidade camuflada em medos fúnebres, muita solidão à espera de companhia.”
Com os dedos antes ansiosos completamente concentrados, mexendo de um lado para o outro, continuou.
E a noite fez-se eterna…
6:23


